Cegueira por especialização: você realmente sabe
para onde está indo?
Diante de um problema a resolver, especialistas muitas vezes se restringem
a tratar somente aqueles aspectos que dominam mais, em detrimento do todo. O
que fazer para evitar isso?
A prática mostra que técnicos especializados,
agindo de boa fé, tendem a visualizar soluções afeitas ao campo com que têm
maior familiaridade. A concentração excessiva em certas partes de um problema
pode levar a negligenciar aspectos essenciais da resolução. Não se tratar de
ser superficial, e sim de ser profundo nas coisas erradas.
Muitas vezes soluções fáceis substituem as
otimizantes, e o problema só é resolvido na sua forma aparente, porém não na
sua substância. Trata-se de uma espécie de cegueira seletiva, que pode ser
evitada pela visão do todo, pelo comprometimento com os resultados do conjunto,
pela disposição de compreender o funcionamento dos processos ligados ao
problema e a natureza de seus elementos, assim como pela formulação e execução
de ações alinhadas a estas percepções.
As causas são várias. Seja por vício, comodidade,
visão incompleta de uma situação ou dificuldades para promover os entendimentos
necessários, geram-se freqüentemente soluções não ótimas e, com elas,
retrabalho e discussões evitáveis, quando não fracassos e prejuízo para a
organização.
Há quem se satisfaça em aparentar que está
caminhando na direção da solução. É mais freqüente do que parece: a pressa e a
necessidade de chegar a um resultado apresentável para certo problema levam a
soluções visíveis porém estéreis – que muitas vezes são aquelas ligados à
elaboração de uma resposta formal a uma situação: ter algum sistema criado, ter
um manual elaborado, ter uma proposta escrita para apresentar a um cliente, ter
um produto desenvolvido, ter um parecer em mãos. No limite, pode-se chegar a
juntar todos os elementos necessários à solução, exceto aquele que é o
principal, por exemplo, chamam-se para discutir todos os especialistas da
empresa para criar um produto (advogados, técnicos em comunicação, experts em
marketing, técnicos em logística, etc.) mas não o representante da área
responsável pela futura disponibilização do produto. Como evitar erros desse
tipo?
Em primeiro lugar, é necessário ter uma compreensão
do problema em seu conjunto e seus desdobramentos. Soluções que privilegiam a
aparência em detrimento da essência são só uma maneira de tomar a parte quando
deveria considerar o todo. Existe uma diferença entre chegar a uma solução e
resolver definitivamente um problema.
Em segundo lugar, é preciso ter disposição genuína
para encarar as reais exigências da situação, e identificar quais elementos e
pessoas são essenciais, e quais deles são opcionais. Não se trata de uma
questão de pesos ou ponderações, e sim de rigor ao discernir elementos
essenciais para que um processo se deflagre. É possível iludir os outros para
vender uma solução, mas não é possível enganar a si próprio.
Há ainda quatro recomendações a respeito que podem
ser feitas:
- ao examinar os interesses envolvidos, considere cuidadosamente os da organização: ela poderá não se contentar com resultados sub-otimizados;
- dedique o tempo necessário às tarefas preliminares: entender o problema a ser resolvido e determinar quem são as pessoas envolvidas. Chamá-las com atraso, incorporando-as ao trabalho com o bonde andando, pode significar aumento considerável do custo de chegar a uma solução;
- não é impensável ter de rever os termos de uma solução, mas essa revisão ocorrerá mais cedo se a solução inicial não for de boa qualidade;
- repense. Formular soluções não é um processo instantâneo. Alternativas são construídas e reelaboradas, revistas, discutidas e aprimoradas.
Convém ainda aproveitar os vários momentos do
processo de construção para avaliar o rumo que a solução está tomando, e
verifique se as reais exigências do problema estão sendo consideradas.
Soluções de melhor qualidade são favorecidas pela
disposição para discutir com franqueza e negociar para chegar a propostas capazes
de atender de forma balanceada os vários interesses e aspectos do problema.
Ainda que em muitas empresas existam comitês de avaliação condescendentes com
resultados que são apenas razoáveis, e mesmo que eventuais cobranças possam ser
atenuadas por uma atitude condescendente da alta administração, os desequilíbrios
presentes na composição de uma proposta não escapam ao julgamento da realidade:
tomam a forma de menores ganhos, desperdícios,
oportunidades perdidas e clientes mal atendidos.
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José
Luís Neves é profissional da área de planejamento e finanças. Administrador de
empresas e economista, tem mestrado em Administração pela FEA-USP. Possui mais
de 25 anos de experiência adquirida em empresas renomadas dos segmentos de consultoria
e serviços médicos.Tem desempenhado o papel de gestor de finanças e coordenador de processos, liderando as áreas de
controladoria, contabilidade e rotinas financeiras.
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