quinta-feira, 11 de junho de 2015

Cegueira por especialização: você realmente sabe para onde está indo?


Diante de um problema a resolver, especialistas muitas vezes se restringem a tratar somente aqueles aspectos que dominam mais, em detrimento do todo. O que fazer para evitar isso?



A prática mostra que técnicos especializados, agindo de boa fé, tendem a visualizar soluções afeitas ao campo com que têm maior familiaridade. A concentração excessiva em certas partes de um problema pode levar a negligenciar aspectos essenciais da resolução. Não se tratar de ser superficial, e sim de ser profundo nas coisas erradas.

Muitas vezes soluções fáceis substituem as otimizantes, e o problema só é resolvido na sua forma aparente, porém não na sua substância. Trata-se de uma espécie de cegueira seletiva, que pode ser evitada pela visão do todo, pelo comprometimento com os resultados do conjunto, pela disposição de compreender o funcionamento dos processos ligados ao problema e a natureza de seus elementos, assim como pela formulação e execução de ações alinhadas a estas percepções.

As causas são várias. Seja por vício, comodidade, visão incompleta de uma situação ou dificuldades para promover os entendimentos necessários, geram-se freqüentemente soluções não ótimas e, com elas, retrabalho e discussões evitáveis, quando não fracassos e prejuízo para a organização.

Há quem se satisfaça em aparentar que está caminhando na direção da solução. É mais freqüente do que parece: a pressa e a necessidade de chegar a um resultado apresentável para certo problema levam a soluções visíveis porém estéreis – que muitas vezes são aquelas ligados à elaboração de uma resposta formal a uma situação: ter algum sistema criado, ter um manual elaborado, ter uma proposta escrita para apresentar a um cliente, ter um produto desenvolvido, ter um parecer em mãos. No limite, pode-se chegar a juntar todos os elementos necessários à solução, exceto aquele que é o principal, por exemplo, chamam-se para discutir todos os especialistas da empresa para criar um produto (advogados, técnicos em comunicação, experts em marketing, técnicos em logística, etc.) mas não o representante da área responsável pela futura disponibilização do produto. Como evitar erros desse tipo?

Em primeiro lugar, é necessário ter uma compreensão do problema em seu conjunto e seus desdobramentos. Soluções que privilegiam a aparência em detrimento da essência são só uma maneira de tomar a parte quando deveria considerar o todo. Existe uma diferença entre chegar a uma solução e resolver definitivamente um problema.

Em segundo lugar, é preciso ter disposição genuína para encarar as reais exigências da situação, e identificar quais elementos e pessoas são essenciais, e quais deles são opcionais. Não se trata de uma questão de pesos ou ponderações, e sim de rigor ao discernir elementos essenciais para que um processo se deflagre. É possível iludir os outros para vender uma solução, mas não é possível enganar a si próprio.

Em terceiro lugar, é preciso não se contentar com soluções formais. A preocupação honesta com os objetivos a alcançar e com a real natureza do problema deve estar presente em todas as fases da busca de solução, e também depois; deve-se tê-la presente durante as fases de implementação e de avaliação dos resultados.

Há ainda quatro recomendações a respeito que podem ser feitas:

- ao examinar os interesses envolvidos, considere cuidadosamente os da organização: ela poderá não se contentar com resultados sub-otimizados;

- dedique o tempo necessário às tarefas preliminares: entender o problema a ser resolvido e determinar quem são as pessoas envolvidas. Chamá-las com atraso, incorporando-as ao trabalho com o bonde andando, pode significar aumento considerável do custo de chegar a uma solução;

- não é impensável ter de rever os termos de uma solução, mas essa revisão ocorrerá mais cedo se a solução inicial não for de boa qualidade;

- repense. Formular soluções não é um processo instantâneo. Alternativas são construídas e reelaboradas, revistas, discutidas e aprimoradas.


Convém ainda aproveitar os vários momentos do processo de construção para avaliar o rumo que a solução está tomando, e verifique se as reais exigências do problema estão sendo consideradas.

Soluções de melhor qualidade são favorecidas pela disposição para discutir com franqueza e negociar para chegar a propostas capazes de atender de forma balanceada os vários interesses e aspectos do problema. 

Ainda que em muitas empresas existam comitês de avaliação condescendentes com resultados que são apenas razoáveis, e mesmo que eventuais cobranças possam ser atenuadas por uma atitude condescendente da alta administração, os desequilíbrios presentes na composição de uma proposta não escapam ao julgamento da realidade: tomam a forma de  menores ganhos, desperdícios, oportunidades perdidas e clientes mal atendidos.



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                                                                                                                           José Luís Neves é profissional da área de planejamento e finanças. Administrador de empresas e economista, tem mestrado em Administração pela FEA-USP. Possui mais de 25 anos de experiência adquirida em empresas renomadas dos segmentos de consultoria e serviços médicos.Tem desempenhado o papel de gestor de finanças e coordenador de processos, liderando as áreas de controladoria, contabilidade e rotinas financeiras.

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