sábado, 16 de maio de 2015

Para alguém que pensa em mudar de emprego





Uma profissional em início de carreira nos traz um dilema que muitas pessoas gostariam de ter: está satisfeita com o atual emprego, mas se depara hoje com uma opção que talvez lhe dê melhores condições para progredir na trajetória profissional. As duas alternativas são boas por diferentes motivos, e chegou o momento de compará-las, mesmo porque a jovem já passou por uma das fases do processo de seleção para a nova vaga e até o momento se saiu bem. O que fazer?

Em primeiro lugar, não deve se sentir mal por estar em dúvida. É uma escolha importante e difícil, mesmo. E é possível que nenhuma das opções esteja cabalmente errada, do tipo capaz de gerar terrível arrependimento depois. Pelo que descreveu, as duas alternativas são atraentes, de maneira que podemos entender a existência de dúvida como um bom sinal. Na verdade, a questão é um pouco mais ampla: continuamente, convive-se com um feixe enorme de opções potenciais: são centenas de empresas para as quais você diz "não" a cada dia quando acorda e vai para o trabalho.

Sua trajetória profissional pode ser desenhada de formas diferentes. Colocam-se hoje diante de você duas opções, e coisa semelhante deverá acontecer no futuro, muitas vezes. Convém desenvolver uma abordagem geral para refletir sobre o assunto (mesmo porque situações semelhantes ocorrerão no futuro) e chegar a uma definição que seja satisfatória.

A primeira coisa a fazer é juntar o máximo de informações que for possível sobre as duas empresas. Não se engane supondo que por estar trabalhando em uma delas você conhece tudo o que é possível e necessário sobre o negócio. Convém ir atrás dos dados e organizá-los para refletir com calma e deixar as idéias se sedimentarem. É válido procurar pessoas que já trabalham nas duas empresas e que podem dar uma idéia mais clara sobre o que poderia ser seu futuro lá dentro. Não tenha medo de perguntar sobre a rotina, o ambiente de trabalho e as características do dia-a-dia no trabalho, e não presuma que já conhece coisas que na verdade são duvidosas. Fale também com familiares e amigos, que poderão ajudar na escolha dos temas vinculados à decisão e no posicionamento em relação a cada um deles.

Algumas questões para refletir, treinando a honestidade para consigo mesma:

1.       Solidez do empregador. Financeiramente, qual é a situação de cada um dos empregadores? Quais são as tendências? A empresa está crescendo? Há risco de o segmento ter problemas e ser gerada uma onda de demissões? Qual das empresas oferece risco maior de surpresas?

2.       Crescimento. Quais são as reais chances de crescimento profissional nos dois casos? Há elementos concretos que dêem indícios a respeito? Qual das opções oferece um plano de carreira mais sólido?

3.       Natureza e intensidade das pressões. Como você lida com os desafios e pressões específicas de cada uma das duas opções? Alguma delas oferece um conjunto de dificuldades que seria crítico para você, ou semelhante a um que você já enfrentou?

4.       Reconhecimento. Em qual das opções você dependerá mais do seu mérito, e menos de circunstâncias e sorte?


5.       Chefia. Como será o perfil de seu futuro chefe? É possível captar algum indício, ainda que brevemente em uma entrevista? Seu perfil e o dele têm chances de combinar?

6.       Valores pessoais. Considerando as suas aspirações e expectativas profissionais, qual das opções oferece maior chance de serem criadas condições que combinem com elas? Você gosta do tipo de atividade que vai poder desenvolver em cada uma das empresas?

7.       Importância estratégica. Com o passar do tempo, sua atividade vai ganhar importância estratégica? Como se colocam, quanto a esse aspecto, as duas alternativas? Qual será o próximo degrau de sua carreira em um caso e no outro?

8.       Reputação. Qual é a imagem que cada uma das empresas tem no mercado? São marcas consolidadas? O que representaria o parágrafo a mais em seu currículo descrevendo suas atividades em um caso ou no outro? Faria bem a sua reputação? Qual é a força do nome do empregador em um caso e no outro?

9.       Ritmo e conformação da trajetória. Sua estratégia de vida futura está de acordo com o tipo de evolução que cada alternativa oferece? Por exemplo, há pessoas que preferem trabalhar em empresas pequenas que crescerão com o tempo; outras preferem estar em empresas grandes com um crescimento menos intenso, porém mais certo.

10.   Remuneração e benefícios. Salário não é tudo, mas é importante. Não é suficiente e não deve ser o único fator em uma decisão, mas não pode deixar de ser considerado: qual das opções oferece melhor recompensa financeira, pondo na balança também os benefícios?

11.   Aprendizado. Qual das opções oferece melhores chances de aprendizado técnico e habilidades de relacionamento? Qual das opções obrigará você a conhecer diferentes pessoas e áreas, culturas e técnicas de trabalho?

12.   Intensidade da competição. Alguns ambientes são mais competitivos, outros são mais cooperativos. Como se colocam as duas opções quanto a esses aspectos? Qual delas tem mais a ver com as suas preferências pessoais?

13.   Riqueza da jornada. Imagine-se daqui a dez anos, contando a história de sua carreira como uma jornada composta por desafios que foram vencidos, dificuldades com que você teve de lidar, oportunidades de crescimento que soube aproveitar, etc. Qual das duas opções é melhor quanto a esse aspecto?

14.   Comodidade. Qual é a distância entre sua residência e o local (ou locais) de trabalho? Quanto tempo você empregará em deslocamentos? Qual seria sua qualidade de vida em um caso e no outro?

15.   Reversibilidade. Vamos supor que em futuro não muito distante você venha a sentir que deveria ter escolhido a outra alternativa. Isso será reversível? (Ou seja, haverá condição de buscar futuramente alternativa semelhante à opção que você hoje cogita descartar?) Em que medida a escolha seria reversível, se considerarmos cada uma das opções?

16.   Seus limites e as implicações da mudança. Pense na maneira pela qual você costuma se posicionar diante de desafios: já aconteceu de os aceitar para depois perceber que ultrapassou seu limite físico e mental? A combinação de alta responsabilidade pessoal com senso de dever e um elevado nível de auto-exigência não é errada, mas tem suas implicações. Convém ter para si com clareza quais são seus elementos limitantes e em qual é a sua sensibilidade a eles. Você poderá dizer, por exemplo, se passar a dormir quatro horas por noite e ter de viajar toda semana são coisas suportáveis ou não. Se o preço do novo estilo de vida for depressão continuada e dificuldade em cumprir seu papel, convém ser honesta consigo mesma e verificar se é possível ou não rearranjar atividades, adotar meios mais práticos de executar as ações, diferenciar o que é aceitável do que não é e alterar aquilo que pode ser alterado para tornar viável a mudança.


Abandonar uma das alternativas sem ter se convencido de que há reais motivos para fazê-lo não é a coisa certa a fazer, porque vai deixá-la para o resto da vida com a sensação de que poderia ter aproveitado a chance e não o fez. Decisões satisfatórias muitas vezes dependem de ter mais e melhores informações e análise, de forma que valerá a pena trocar idéias com pessoas próximas, conversar com o potencial empregador, esforçar-se para conhecer o novo ambiente ainda que brevemente, passar por entrevistas e processos seletivos, etc. Não se sai menor desses processos, e sim maior.


Boa sorte.