Uma profissional em início de carreira nos traz um dilema
que muitas pessoas gostariam de ter: está satisfeita com o atual emprego, mas se
depara hoje com uma opção que talvez lhe dê melhores condições para progredir
na trajetória profissional. As duas alternativas são boas por diferentes
motivos, e chegou o momento de compará-las, mesmo porque a jovem já passou por
uma das fases do processo de seleção para a nova vaga e até o momento se saiu
bem. O que fazer?
Em primeiro lugar, não deve se sentir mal por estar em
dúvida. É uma escolha importante e difícil, mesmo. E é possível que nenhuma das
opções esteja cabalmente errada, do tipo capaz de gerar terrível arrependimento
depois. Pelo que descreveu, as duas alternativas são atraentes, de maneira que
podemos entender a existência de dúvida como um bom sinal. Na verdade, a
questão é um pouco mais ampla: continuamente, convive-se com um feixe enorme de
opções potenciais: são centenas de empresas para as quais você diz
"não" a cada dia quando acorda e vai para o trabalho.
Sua trajetória profissional pode ser desenhada de formas
diferentes. Colocam-se hoje diante de você duas opções, e coisa semelhante
deverá acontecer no futuro, muitas vezes. Convém desenvolver uma abordagem
geral para refletir sobre o assunto (mesmo porque situações semelhantes
ocorrerão no futuro) e chegar a uma definição que seja satisfatória.
A primeira coisa a fazer é juntar o máximo de informações
que for possível sobre as duas empresas. Não se engane supondo que por estar trabalhando
em uma delas você conhece tudo o que é possível e necessário sobre o negócio.
Convém ir atrás dos dados e organizá-los para refletir com calma e deixar as
idéias se sedimentarem. É válido procurar pessoas que já trabalham nas duas empresas
e que podem dar uma idéia mais clara sobre o que poderia ser seu futuro lá
dentro. Não tenha medo de perguntar sobre a rotina, o ambiente de trabalho e as
características do dia-a-dia no trabalho, e não presuma que já conhece coisas
que na verdade são duvidosas. Fale também com familiares e amigos, que poderão
ajudar na escolha dos temas vinculados à decisão e no posicionamento em relação
a cada um deles.
Algumas questões para refletir, treinando a honestidade para
consigo mesma:
1.
Solidez
do empregador. Financeiramente, qual é a situação de cada um dos empregadores?
Quais são as tendências? A empresa está crescendo? Há risco de o segmento ter
problemas e ser gerada uma onda de demissões? Qual das empresas oferece risco
maior de surpresas?
2.
Crescimento.
Quais são as reais chances de crescimento profissional nos dois casos? Há
elementos concretos que dêem indícios a respeito? Qual das opções oferece um
plano de carreira mais sólido?
3.
Natureza
e intensidade das pressões. Como você lida com os desafios e pressões
específicas de cada uma das duas opções? Alguma delas oferece um conjunto de
dificuldades que seria crítico para você, ou semelhante a um que você já
enfrentou?
4.
Reconhecimento.
Em qual das opções você dependerá mais do seu mérito, e menos de circunstâncias
e sorte?
5.
Chefia.
Como será o perfil de seu futuro chefe? É possível captar algum indício, ainda
que brevemente em uma entrevista? Seu perfil e o dele têm chances de combinar?
6.
Valores
pessoais. Considerando as suas aspirações e expectativas profissionais,
qual das opções oferece maior chance de serem criadas condições que combinem
com elas? Você gosta do tipo de atividade que vai poder desenvolver em cada uma
das empresas?
7.
Importância
estratégica. Com o passar do tempo, sua atividade vai ganhar importância
estratégica? Como se colocam, quanto a esse aspecto, as duas alternativas? Qual
será o próximo degrau de sua carreira em um caso e no outro?
8.
Reputação.
Qual é a imagem que cada uma das empresas tem no mercado? São marcas
consolidadas? O que representaria o parágrafo a mais em seu currículo
descrevendo suas atividades em um caso ou no outro? Faria bem a sua reputação?
Qual é a força do nome do empregador em um caso e no outro?
9.
Ritmo e
conformação da trajetória. Sua estratégia de vida futura está de acordo com
o tipo de evolução que cada alternativa oferece? Por exemplo, há pessoas que
preferem trabalhar em empresas pequenas que crescerão com o tempo; outras
preferem estar em empresas grandes com um crescimento menos intenso, porém mais
certo.
10.
Remuneração
e benefícios. Salário não é tudo, mas é importante. Não é suficiente e não
deve ser o único fator em uma decisão, mas não pode deixar de ser considerado:
qual das opções oferece melhor recompensa financeira, pondo na balança também
os benefícios?
11.
Aprendizado.
Qual das opções oferece melhores chances de aprendizado técnico e habilidades
de relacionamento? Qual das opções obrigará você a conhecer diferentes pessoas
e áreas, culturas e técnicas de trabalho?
12.
Intensidade
da competição. Alguns ambientes são mais competitivos, outros são mais
cooperativos. Como se colocam as duas opções quanto a esses aspectos? Qual
delas tem mais a ver com as suas preferências pessoais?
13.
Riqueza
da jornada. Imagine-se daqui a dez
anos, contando a história de sua carreira como uma jornada composta por
desafios que foram vencidos, dificuldades com que você teve de lidar,
oportunidades de crescimento que soube aproveitar, etc. Qual das duas opções é
melhor quanto a esse aspecto?
14.
Comodidade.
Qual é a distância entre sua residência e o local (ou locais) de trabalho?
Quanto tempo você empregará em deslocamentos? Qual seria sua qualidade de vida
em um caso e no outro?
15.
Reversibilidade.
Vamos supor que em futuro não muito distante você venha a sentir que deveria
ter escolhido a outra alternativa. Isso será reversível? (Ou seja, haverá condição
de buscar futuramente alternativa semelhante à opção que você hoje cogita
descartar?) Em que medida a escolha seria reversível, se considerarmos cada uma
das opções?
16.
Seus
limites e as implicações da mudança. Pense na maneira pela qual você
costuma se posicionar diante de desafios: já aconteceu de os aceitar para
depois perceber que ultrapassou seu limite físico e mental? A combinação de
alta responsabilidade pessoal com senso de dever e um elevado nível de
auto-exigência não é errada, mas tem suas implicações. Convém ter para si com
clareza quais são seus elementos limitantes e em qual é a sua sensibilidade a
eles. Você poderá dizer, por exemplo, se passar a dormir quatro horas por noite
e ter de viajar toda semana são coisas suportáveis ou não. Se o preço do novo
estilo de vida for depressão continuada e dificuldade em cumprir seu papel,
convém ser honesta consigo mesma e verificar se é possível ou não rearranjar
atividades, adotar meios mais práticos de executar as ações, diferenciar o que
é aceitável do que não é e alterar aquilo que pode ser alterado para tornar
viável a mudança.
Abandonar uma das alternativas sem ter se convencido de que
há reais motivos para fazê-lo não é a coisa certa a fazer, porque vai deixá-la
para o resto da vida com a sensação de que poderia ter aproveitado a chance e
não o fez. Decisões satisfatórias muitas vezes dependem de ter mais e melhores
informações e análise, de forma que valerá a pena trocar idéias com pessoas
próximas, conversar com o potencial empregador, esforçar-se para conhecer o novo
ambiente ainda que brevemente, passar por entrevistas e processos seletivos,
etc. Não se sai menor desses processos, e sim maior.
Boa sorte.
